Porque brasileiros choram

Não é só pela pobreza, pela exploração ou pela fome que o povo brasileiro chora atualmente. Essas são algumas mazelas antigas, já introjetadas na cultura de miséria a que estão submetidos milhões de homens, mulheres e crianças no Brasil. A  pobreza apenas não é mais suficiente para fazer chorar os mais de 50 milhões de habitantes de uma das dez maiores potências econômicas do mundo que sobrevivem com quase nada. Oprimidos abaixo da linha da pobreza, os que estão na base da pirâmide socioeconômica sofrem diante das injustiças impostas por uma lógica social maligna, que favorece os mais ricos. Outra parcela da população, localizada logo acima nessa pirâmide, mas ainda em situação desconfortável, é esmagada por um sistema tributário perverso, que também privilegia os mais abastados.

Todos sabemos da origem colonial do Brasil, mas parece que poucos percebem que os brasileiros ainda estão submetidos a uma lógica pseudo democrática na qual os mais pobres ainda são explorados pelos mais ricos. É um tipo de neocolonialismo exploratório nacionalizado. Os recursos naturais e a mão de obra são fartos por aqui, mas os meios de produção e o poder de influência estão nas mãos de poucos. Esses dois últimos fatores se retroalimentam e crescem em progressão geométrica. Quanto mais poder econômico, mais força política. O resultado é que o sistema de representação parlamentar, também roteirizado pela elite econômica, privilegia projetos de interesse dos ricos, tornando-se uma gigantesca bola de neve a esmagar a classe pobre. É um modelo legalizado de corrupção social lubrificado com vaselina e embalado em papel dourado.

No Brasil, quanto maior a fortuna, menor a incidência de impostos. Enquanto os 10% mais ricos são taxados em apenas 21%, os 10% mais pobres comprometem mais de 32% da renda para subsidiar programas sociais que ainda estão aquém das necessidades. Esses dados, entre outros, têm sido apresentados por entidades representativas de funcionários do alto escalão dos fiscos estaduais e federal do Brasil que lançaram o movimento em defesa de uma Reforma Tributária Solidária. São os próprios auditores-fiscais que identificam que “o sistema tributário brasileiro agrava as desigualdades porque protege a renda e o patrimônio dos muito ricos.” Esse fato é muito chocante, pois, além de ampliar a desigualdade social, ajuda a aniquilar com o pouco de esperança que ainda resta ao povo brasileiro, que já é atingido fortemente pelos efeitos nefastos da corrupção que assola o país.

Os brasileiros choram porque falta decência no país, falta respeito com o patrimônio público, solidariedade e amor ao próximo. Isso abala o sentimento de esperança. Os filhos do Brasil choram porque estão cansados de lutar contra a ganância, o individualismo e as mentiras políticas e comerciais despejadas sobre a população. Trata-se de uma herança cultural hedionda baseada na exploração dos pobres, dos que não têm sequer o suficiente para sustentar uma alimentação simples, uma casa decente e, muito menos, manter os filhos na escola. É por essa série de fatores, entre outros não menos dramáticos, que muitos brasileiros choram hoje.

English version

Why do Brazilians cry?

It is not just poverty, exploitation or hunger that the Brazilian people are crying today. These are some old mischief, already introjected in the misery culture to which millions of men, women and children are subjected in Brazil. Poverty alone is no longer enough to make the poor cry. There are more than 50 million inhabitants of one of the ten largest economic powers in the world who survive with almost nothing. Oppressed below the poverty line, those at the bottom of the socioeconomic pyramid suffer from the injustices imposed by an evil social logic that favors the rich. Another part of the population, located just above this pyramid, but still in an uncomfortable situation, is crushed by a perverse tax system, which also privileges the well-heeled.

We all know of the colonial origin of Brazil, but it seems that few realize that Brazilians are still subjected to a pseudo-democratic logic in which the poorest are still exploited by the richest. It is a kind of nationalized exploratory neocolonialism. Natural resources and workers are abundant here, but the means of production and the power of influence are in the hands of the few. These last two factors self-feed and grow in geometric progression. The more economic power, the more political power. The result is that the system of parliamentary representation, also scripted by the economic elite, privileges projects of interest to the rich, becoming a gigantic snowball to crush the poor class. It is a legalized model of social corruption lubricated with petroleum jelly and packed in golden paper.

In Brazil, the higher the fortune, the lower the incidence of taxes. While the richest 10% are taxed at only 21%, the poorest 10% spend more than 32% of income to subsidize social programs that are still short of needs. These data, among others, have been presented by representative entities of high ranking federal and state officials from Brazil who launched the movement in defense of a Solidary Tax Reform. It is the auditor’s themselves who identify that “the Brazilian tax system aggravates inequality because it alleviate the income and patrimony of the very rich”. This fact is very shocking because, in addition to widening social inequality, it helps to annihilate with the little bit of hope that still remains for the Brazilian people, which is already hit hard by the harmful effects of the corruption that plagues the country.

Brazilians cry because lack of decency in the country, lack of respect for public goods, lack of solidarity and love of neighbor. This shakes the feeling of hope. The people of Brazil cry because they are tired of fighting against greed, individualism and the political and commercial lies thrown over the population. It is a hideous cultural inheritance based on the exploitation of the poor, those who do not even have enough to support a simple meal, a decent home, and much less keep their children in school. It is for this series of factors, among others not less dramatic, that many Brazilians cry today.

Heverton Lacerda is a journalist and Brazilian socio-environmentalist activist. Communication Adviser at the Syndicate of Tax Auditors of State of Rio Grande do Sul and Vice-President of the Gaúcha Association for the Protection of the Natural Environment.

 

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