O engodo de Bolsonaro [ou de Pérsio]?

Pérsio Arida
Clique na imagem para ler a entrevista no site InfoMoney

Em entrevista ao site InfoMoney, o economista tucano Pérsio Arida – creditado como coordenador econômico da campanha de Geraldo Alkmin (PSDB) para a Presidência da República – disse que “Bolsonaro é um engodo, tão estatizante quanto a esquerda”.
A propósito dessa afirmação, me deparei pensando a respeito da palavra “engodo” – tão presente no Brasil há 518 anos – e nos valores envolvidos nas expressões “estatizante” e “esquerda”.

Está claro que Arida se refere ao sentido ideológico de “esquerda”. Acontece que ele define Bolsonaro como sendo um “engodo” porque o político-militar [ou militar-político] é uma ameaça a Alkmin, que precisa dos votos dos eleitores propensos a votar em candidatos da corrente ideológica da direita política. É verdade que Bolsonaro já foi carimbado, também, como sendo de direita apenas no campo político, e que na área do mercado seria de esquerda. Já aqui essas especulações devem deixar muito eleitores confusos – e indecisos. Bem, talvez o melhor chapéu [ou capacete] para Bolsonaro, nessa lógica, seria o paradigma direita-esquerda-volver. “Sentido?”

Mas, voltando à análise de valor político da palavra “esquerda”, no que se aproxima um pouco mais da expressão “estatizante”, imagino que todo leitor bem informado tenha presente a diferença entre o que é público (estatal) e o que é privado. Quando o liberal Arida diz que alguém é  “tão estatizante quanto a esquerda”, deixa claro que, em seu pensamento ideologicamente de direita, a esquerda defende o patrimônio público, ideal ao qual ele é contrário. Aqui temos um ponto chave que deveria ser decisivo para o posicionamento da população quanto a votar em candidatos de esquerda ou de direita. Quando o patrimônio é público, há maior possibilidade de a população definir o destino de cada órgão estatal ou riqueza natural. É claro que, antes, precisa acertar o voto. No entanto, quando se trata de patrimônio privado, nem aprendendo a votar teríamos a chance de decidir sobre um determinado bem, pois são os donos privados que determinam, inclusive, para onde vai o lucro de “seus” investimentos. [Dá para imaginar que não é para investir na população]

Acontece que quem investe no patrimônio público são os próprios cidadãos, através dos impostos que pagam embutidos nos preços de produtos e serviços [falarei mais sobre isso em outro post]. Além de defender a privatização do patrimônio público, a direita é ávida pelas famosas PPPs, as Parcerias Público Privadas. No meu entendimento, as PPPs são o suprassumo da cobiça de corruptores para botar a mão no dinheiro público. E os corruptos no comando do Estado, sejam de direita ou esquerda, adoram as comissões recebidas em troca do facilitamento de acesso. Esse é um aspecto que, independente de qualquer ideologia política partidária, precisa ser exterminado definitivamente.

Não pretendo aqui fazer uma defesa incondicional da esquerda partidária, afinal, inclusive, tenho certas reservas quanto ao nosso atual modelo representativo partidário e suas influências no Estado [mais um assunto para outro post]. Neste atual cenário democrático, a vantagem incontestável da “esquerda” é estar assentada, teoricamente, na concepção da social democracia, mais representativa e distributiva do que a direita, essa estabelecida sobre os preceitos da economia de mercado, tão feroz, determinante e excludente quanto o Darwinismo Social.

Autoritarismo

” As ideologias autoritárias são ideologias da ordem e distinguem-se daquelas que tendem à transformação mais ou menos integral da sociedade, devendo entre elas ser incluídas as ideologias totalitárias.” [Bobbio, 1998, 95]

Uma das principais críticas que costuma recair muito sobre a esquerda política são as suas vertentes autoritária e populista. É inegável que elas existem, e se tornam ainda mais evidentes quando certos grupos estão no comando do Estado . Mas também há de se perceber que o autoritarismo não é uma exclusividade da esquerda [veja, como exemplos, os casos Donal Trump, nos Estados Unidos, e Nelson Marchezan Júnior, em Porto Alegre, entre muitos outros]. Um fator a se levar em conta quanto à percepção sobre a forma de governar deste ou daquele governante é a intenção expressa – por vezes de forma subliminar – nas notícias dos grandes veículos de comunicação, empresas muito atreladas e economicamente dependentes de grupos empresariais de propriedade da elite econômica [leia-se “direita”].

Conforme o filósofo político Norberto Bobbio, “as ideologias autoritárias são as que negam, de uma maneira mais ou menos decisiva, a igualdade dos homens e colocam em destaque o princípio hierárquico …” .

No campo político, direita e esquerda têm esse defeito do autoritarismo, algo não exclusivo do setor público, registre-se. Integrantes de ambas ideologias também sucumbem aos encantos da corrupção. O que as difere? Corrigindo essas falhas, a direita continuaria estimulando a concorrência de mercado e, logo, a desigualdade social, na qual poucos têm muito e milhares ficam abaixo da linha da pobreza (50 milhões só no Brasil). A esquerda, mais representativa, teria [tem] o dever ético e moral de governar com e para todos, com vista a estimular a igualdade de oportunidades, o fim da fome, do déficit de moradias, o acesso universal à educação e aos servições de saúde de boa qualidade, enfim, ser ética e promover a dignidade social.

Engodo [vulgo falcatrua no Brasil], segundo o dicionário Priberam, tem origem obscura e significa, além de “isca”, qualquer artifício usado para atrair ou enganar.

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